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Caucaiense campeão de Paracanoagem, pode ficar de fora do Brasileiro, por falta de patrocínio

Publicado dia 20/08/2017 às 11h34min | Atualizado dia 20/08/2017 às 11h38min
Sem apoio, Wercley Carneiro cogita encerrar a carreira de ouro precocemente, iniciada no paratletismo
Nesta sexta-feira (18), a Policia Federal deflagrou a Operação Havana, para apurar possível desvio de recursos do Bolsa Atleta do Ministério do Esporte da ordem de R$ 1 milhão, pela inclusão no programa de atletas fantasmas. 
 
Enquanto isso, no cruzamento das Avenidas Abolição com Senador Virgílio Távora, na Aldeota, um dos Bairros das mais nobres da cidade de Fortaleza no Ceará, o paratleta cearense, natural de Caucaia, Werclay Carneiro (37), corre contra o tempo e pede ajuda financeira para participar do Campeonato Brasileiro de Paracanoagem entre os dias 31 deste mês e 3 de setembro próximo em Curitiba-PR.
 
Quando o sinal fica vermelho para os automóveis, Wercley aproveita e exibe as medalhas conquistadas em 15 anos enquanto paratleta de alto rendimento, principalmente, a mais preciosa delas: Campeão da Copa Brasil de Paracanoagem, adulto, na prova dos 200m, categoria canoa V1/ VL2, ganha em 11 de março deste ano no Parque Náutico do Iguaçu, em Curitiba – PR.
 
O medalhista disse que quando os carros param “é o momento no qual o sinal fica verde para a solidariedade de motoristas e pedestres”. 
 
Ele informou que o dinheiro arrecadado no semáforo da Aldeota, servirá também para custear sua participação no Campeonato Sulamericano de Paracanoagem, de 15 a 18 de novembro próximo, em Lima (Peru), nas categorias Canoa Polinésia e Havaiana.
 
“Tenho muitas despesas: hospedagem, alimentação, academia e suplementos entre outros itens e, Infelizmente, não tenho outra renda. Ou eu treino ou trabalho. Os dois juntos não dá, pois cai meu rendimento. Pedir é a única forma que eu tenho para conseguir os recursos que preciso”, pontuou o medalhista. 
Sobre auxílios de fonte oficial para sua pratica esportiva, o paratleta disse que recebeu, em 2006, o Bolsa Atleta estadual, há época. fixado em um valor médio mensal de R$ 260,00. 
 
“Lembro que recebi. O dinheiro era pouco. Não dava pra nada. Mesmo assim, só depositaram quatro parcelas das 12 a que eu tinha direito. Eu ia lá no banco e nada de dinheiro”, denunciou Carneiro.
 

Wercley descobre seu talento no lançamento de disco

 
Diagnosticado com deformação dos membros inferiores ao nascer, em decorrência da sua mãe ter usado a Talidomida durante os primeiros meses de gestação, só em 2001, aos 22 anos, Wercley começou a competir no atletismo paralimpico nas provas de arremesso de peso, lançamento de disco e de dardo.
 
Nesses 15 anos dedicados a três, das dez, provas do decatlo, seu talento se revelou, principalmente no lançamento de disco, modalidade na qual foi campeão em todas as paralimpiadas realizadas no Ceará. 
 
Em duas participações no Circuito Brasil Paralimpico Caixa se destacou em duas provas.  Campeão no arremesso de peso, em 2004 e 2005, nas etapas de Belém e Fortaleza respectivamente e vice-campeão no lançamento de disco nas mesmas competições. 
 
“Mesmo com dificuldade para conseguir verba, sempre estive entre os seis melhores paratletas de lançamento de disco do pais”, revelou o cearense.
 
De fato, em 2015, Carneiro, comprovou sua performance no lançamento de disco ao ser vice-campeão mundial do Circuito internacional Caixa, categoria F56, realizado em São Paulo-SP, com a participação de 24 países.
 

Do atletismo para a canoagem

 

Em 2016, cansado da dura rotina de angariar recursos nas ruas da cidade e dos treinos estafantes e solitários na pista de atletismo, o desportista migra para a canoagem em busca da tranquilidade e do visual agradável das lagoas. 

 
Com as vitórias, resolve também, buscar fontes de patrocínio oficiais mais robustas que financiem sua preparação nas competições oficiais da Confederação Brasileira de Canoagem e Paracanoagem (CBCA) e da Confederação Brasileira de Canoa Polinésia e Havaiana (CBVA’A) no Brasil e no exterior.
 

Novas fontes de patrocínio

 
Em 15 anos coletando doações nos sinais de trânsito, o cearense, natural do município de Caucaia, viajou para os mais diferentes lugares de competições. Agora, que busca o apoio da Secretaria de Esportes e da Juventude local e da Secretaria de Esportes do Estado do Ceará (Sesporte), encontra dificuldades para captar patrocínio, por uma série de fatores.
 
Segundo Wercley uma dessas barreiras é a burocracia. “Na Secretaria de Eesportes de Caucaia, por exemplo, onde solicitei verba de viagem, que inclui hospedagem, alimentação e transporte interno, a principal dificuldade é que todo dia me ligam e pedem documentos e mais documentos e nada resolvem”, criticou o caucaiense.
 

O Ceará na contra mão da Paracanoagem

 
O pioneiro dessa modalidade de esporte paraquático, destacou outro obstáculo para a liberação de verbas referentes a passagens aéreas, por exemplo, que seriam fornecidas pelo Governo do Ceará. 
 
“Nosso estado não tem uma federação de paracanoagem constituída, o que me obrigou a me filiar em um clube carioca [BRA Va’a Canoe Club na Marina da Glória, praia do Flamengo-RJ] para que eu pudesse participar das competições”, detalhou Carneiro.
 
Fato esse, que, de acordo com o paratleta, “vai de encontro as regras estabelecida via edital”, o que, impede a Sesporte de fazer o aporte financeiro ao atleta filiado em clube de outro estado, que não do Ceará, ocasionando, com isso, o bloqueio do valor da passagem aérea.
 

Treino improvisado

 
O mar de adversidades enfrentado pelo medalhista não para por ai. Seu barco profissional (fruto de doação) está, há cinco meses, no Canoe Club no Rio de Janeiro, aos cuidados do seu treinador, Jorge Sousa de Freitas. 
 
Enquanto não consegue trazê-lo para Fortaleza, treina na Marina do Mucuripe em um caiaque amador, emprestado, sem a padronização que exige a competição da CBCA
 
“O secretário Euler Barbosa me disse, em reunião, que a Sesporte ia arcar com o transporte do meu barco do Rio pra cá, mas não o fez”. Tenho orgulho de representar o Ceará, mas da Secretaria de Esportes, tenho vergonha”, disparou o medalhista de ouro contra Euler.
 

O começo do fim

 
Mesmo classificado para o mundial de 2018 no Tahiti (Oceania), o pioneiro da paracanoagem cearense, dá sinais de cansado por remar contra a maré da falta de apoio e cogita a possibilidade de aposentar-se prematuramente. 
 
“Se me ligarem dizendo que desbloquearam a passagem, pode ser que eu vá para Brasileiro neste 31 de agosto, e lá encerro minha carreira. Porque o estresse de outra romaria de documentos para Sulamericano em Lima-Peru, em novembro, eu não aguento”, desabafou Wercley Carneiro.
Serviço:
Doações: Banco do Brasil
Agencia nº 12.18-1
Conta Corrente nº 62202-8
 
Titular: Wercley Carneiro
 
Reportagem especial: Uerbet Santos
Fotos e vídeos: arquivo pessoal de Wercley Carneiro
 

Veja video do treino

Fonte: Blog do Uerbet Santos